Agrotóxicos: um mal necessário?

Pesticida, veneno, agrotóxico, químico: não importa a denominação, sempre que escutamos esses termos ligamos imediatamente com plantação e agricultura em geral, e sabemos que eles fazem mal à saúde. Porém, se faz tão mal, porque continuar usando? Antes de responder a esta pergunta, vamos entender quais são os tipos e como são usados esses agrotóxicos.

Primeiramente, é importante ter em mente que o uso de pesticidas ocorre desde 2500 a.C. com os sumérios, que utilizavam enxofre para combater piolhos, depois no século XVIII com o desenvolvimento escalar da agricultura iniciou-se o uso de fertilizantes em larga escala. A criação e desenvolvimento dos agrotóxicos partiu do anseio do homem em aumentar a produção de alimentos para, assim, melhorar a sua vida. Mas este anseio não foi meramente espontâneo, o consumismo, o aumento da densidade populacional, o desperdício e a opção como fonte de renda foram as engrenagens necessárias para a difusão dos agrotóxicos.

Os campos de cultivo, em suma maioria de monoculturas, cada vez maiores tornaram-se uma potencial fonte de alimento para os mais diversos tipos de insetos, roedores, fungos e bactérias. Essas que, por conta da abundância de alimento, se reproduzem rapidamente e começam a causar diversos problemas e incômodos para uma população, consideradas, assim, uma praga.

OS TIPOS

O termo agrotóxico engloba todos os tipos de substâncias químicas usadas para eliminar uma “praga” de uma determinada localidade. Dentre esses tipos existe os:

– Inseticidas: controle de insetos;

– Herbicidas: controle de plantas invasoras;

– Fumigantes: controle de bactérias do solo;

– Algicidas: controle de algas;

– Moluscicidas:  controle de moluscos;

– Acaricidas: controle de ácaros;

– Desfoliantes e Dissecantes:  controle de folhas indesejadas e regulador de crescimento.

Na família dos pesticidas podemos acrescentar o ácido cianídrico que foi muito utilizado nos Estados Unidos no século XIX para combater insetos nas casas, mas que em breve os insetos criaram imunidade. No início do século XX começaram a ser sintetizados inseticidas orgânicos e a descoberta da atividade inseticida do 1,1,1-tricloro-2,2-di(p-clorofenil)etano, popularmente conhecido como DDT, foi muito utilizado na Segunda Guerra Mundial contra os piolhos que afetavam as tropas norte-americanas.

O DDT é um pesticida organoclorado, outros exemplos são o aldrin, dieldrin, toxafeno e heptacloro. Por serem insolúveis em água e solúveis com compostos apolares, possuem grande acúmulo nos tecidos adiposos dos organismos vivos, além de uma alta estabilidade e demora de degradação.  Logo, então, foi desenvolvido os organofosforados que possuem uma toxicidade aguda maior que a dos organoclorados, porém possuem uma degradação mais rápida. Exemplos de organofosforados são o herbicida glifosato, e os pesticidas malation, paration e dissulfoton.

O USO

A previsão populacional para o ano de 2050 é de 9 bilhões de pessoas (ONU, 2008), essa estatística está diretamente ligada com o consumo de matéria prima e alimentos no mundo, e a produção de alimentos está intrinsicamente ligada com o uso de agrotóxicos e fertilizantes. O consumo de agrotóxicos atual é de 2,6 milhões de toneladas por ano, 86% é usado na agricultura (OMS, 2018). Os pesticidas possuem uma toxicidade latente para o ser humano e, segundo dados do Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas da Fundação Oswaldo-Crus, 10% de todos os casos de intoxicação no Brasil é de origem de agrotóxicos, com média de 6.710 vítimas anuais (FIOCRUZ, 2009). Esse dado se dá pelo uso inadequado dos produtos e, também, pelo consumo de alimentos que carregam resíduos dessas substâncias.

MECANISMO DE AÇÃO

Os pesticidas agem diretamente no sistema nervoso central (SNC) dos insetos, impedindo suas atividades motoras quase que instantaneamente – dependendo da toxicidade – e impossibilitando o inseto de se alimentar e se reproduzir. Porém, o uso indevido e a legalização de pesticidas cada vez mais tóxicos, torna seu contato com o inseto extremamente letal.

Os herbicidas bloqueiam os mecanismos de germinação das sementes, estimulam a desidratação do caule e folhas e impedem a produção de proteínas, carboidratos essenciais e lipídios. Os demais tipos de agrotóxicos seguem a mesma linha de ação dos pesticidas e herbicidas.

O GRANDE PROBLEMA

Cientistas por todo o mundo já pesquisam os efeitos que os agrotóxicos possuem sobre a fauna, flora, solo, água, sedimento e sobre a saúde humana. Pois, resíduos de agrotóxicos são carregados pelos alimentos até as nossas mesas, que são consumidos diariamente por nós. Estudos já relatam que o consumo diário de agrotóxicos é uma das possíveis causas para o câncer. Mas agora voltamos a pergunta do início do texto, porque continuamos usando? Porque não trocamos por alimentos orgânicos, livres de inseticidas e transgênicos?

É uma pergunta tabu, que gera muita discussão, pois não envolve apenas química ou medicina, envolve economia, política, logística e sustentabilidade. Algumas discussões defendem que a invasão por insetos pode ser diminuída com a extinção de monoculturas, outro lado defende que apenas a produção familiar já é o suficiente para alimentar toda uma população.

Por fim, como químico, defendo que o uso de agrotóxicos é importante, afinal, a produção de alimentos tende a aumentar para suprir uma demanda a cada dia, porém, mecanismos de reação alternativos podem ser desenvolvidos para o controle das “pragas”, e que não tenham potencial tóxico para o ser humano ou para o meio ambiente. Vide pesquisas que estudam compostos de controle de pragas a base de estresse físico e que são biodegradáveis, tudo depende do investimento na ciência brasileira, essa que possui um enorme potencial, porém sofre cada vez mais com o sucateamento.

Autor do Texto
Luan Viana
Químico, Estudante e Cientista.

Publicado por Luan Viana

Químico, Estudante e Cientista.

3 comentários em “Agrotóxicos: um mal necessário?

  1. Ótimo post, Lu! Com a liberação de mais agrotóxicos no país, mais do que nunca precisamos debater sobre esse tema e conscientizar as pessoas.

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